O dia que meu cu virou manchete de jornal

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O dia que meu cu virou manchete de jornal
Nós nos encontramos ou, melhor dizendo, trombamos no estacionamento do campus da universidade em frente à biblioteca central. Fora o fato de estudarmos na mesma universidade, não tínhamos nada em comum. Ele cursava engenharia e, eu, medicina. Nada mais antagônico. No entanto, assim que ele esbarrou em mim, quase me derrubando, ao me fazer perder o equilíbrio, depois de chocar violentamente seu corpo musculoso contra o meu, nossos olhares se encontraram. Eu estava prestes a proferir alguns impropérios, quando o brilho expressivo do olhar dele me desarmou. Embora já não houvesse mais contato físico, parecia que um campo eletrificado continuava entre nós, tamanha a intensidade da estranha sensação que meu corpo experimentava. O mesmo devia estar acontecendo com ele. Imediatamente ele se abaixou para pegar a minha mochila da qual metade do conteúdo se achava espalhado sobre o asfalto.
- Mil perdões! Sou mesmo um desastrado. Estou tão apressado que só faço uma besteira atrás da outra. Lá dentro, acabo de derrubar um carrinho abarrotado de livros que a funcionária vai demorar, no mínimo, meia hora para juntar. Calcula os palavrões que ela não soltou. – foi dizendo, numa voz afobada e esbaforida.
- Eu estava me preparando para fazer o mesmo. – revidei, procurando me estabilizar sobre as minhas pernas.
- Desculpe! Eu mereço, pode mandar ver. – devolveu, abrindo um sorriso largo e generoso.
- Você quase arranca o meu ombro. Parece que fui literalmente atropelado. – continuei.
- Cara, você não faz ideia de quantos móveis, pessoas, objetos e, sei lá mais o que, eu já topei. Em casa me chamam de desengonçado. – ele ria de si mesmo, enquanto me devolvia os objetos que caíram da minha mochila.
- Eu imagino você no trânsito. Nunca me ofereça uma carona, quero continuar vivo. – disse, mais relaxado e entrando na brincadeira dele.
- Ao volante sou um ás! Juro! O problema sou eu a pé. Ainda mais quando atrasado.
- Então vai de uma vez, se não quiser se atrasar mais ainda.
- De jeito nenhum! Primeiro, porque você ainda não me desculpou. Segundo, porque já perdi a aula mesmo. E, terceiro, porque vamos até a cafeteria para eu te pagar um café. – explicou. – E, antes de você abrir a boca, nem pense em recusar ou inventar uma desculpa. – intimou.
- Nossa! Você é sempre assim, tão ... tão elétrico? – perguntei.
- Dou até choque. E, então. Vamos?
- Eu tenho uma pesquisa para fazer! ... Está bem, vamos. – respondi, depois de ele colocar a mão na minha boca, me impedindo de falar e, reiterando sua frase para que eu não arranjasse uma desculpa.
- Me chamo Caio, e você?
- Rodrigo. Não posso me demorar! – exclamei, embora algo dentro de mim quisesse saber mais sobre aquele olhar penetrante e, repentinamente, muito interessado em mim.
- Meu carro está logo ali. Te devolvo são e salvo a hora que você mandar. – fez pilhéria.
- Tenho lá as minhas dúvidas! – devolvi, envolvendo-o num sorriso.
Eu nem percebi as duas horas que estivemos na cafeteria passando tão depressa. Havíamos conversado sobre quase tudo, família, faculdade, hobbies, expectativas quanto ao futuro e, por aí vai. O papo rolou tão solto e descontraído como se nós já nos conhecêssemos há muito tempo. Com aquela conversinha e seus sorrisos frequentes, o safado estava me deixando impressionado. Mais do que isso, estava me deixando a fim dele.
- Agora me explica uma coisa. Como um cara tão legal como você e, tão ... tão bonito, vai escolher uma carreira dessas? Medicina. Argh! – perguntou, fazendo cara de nojo.
- De onde você tirou isso? E, o que tem demais fazer medicina? Melhor do que ficar fazendo masturbação mental com cálculos e fórmulas. – revidei.
- Ah! Tá bom! E medicina, que fica metendo a mão em defunto, abrindo e estripando gente, isso não é ruim não? – retrucou.
- Então, se você ficar doente, vai procurar um cérebro cheio de fórmulas e cálculos, depois você me fala.
- Posso dizer o mesmo. Vai procurar um médico se precisar consertar um carro, fazer uma casa e etc, vai encontrar um mão esquerda desajeitado.
- Cara, você é uma figura! – disse, rindo dele.
- E você é um tesão! – retorquiu. Um silêncio se formou de repente. Ele estava tão atraído por mim, quanto eu por ele.
- Está na minha hora. – disse, desviando o olhar para consultar o relógio, para que ele não percebesse que eu havia corado.
- Encabulado então, fica mais sensual. – insistiu.
- Deixa de falar besteira. Está a fim de tirar uma com a minha cara? – disse, embora percebesse a sinceridade das palavras dele estampadas em sua expressão.
- Não são apenas as minhas trombadas que são diretas. As palavras também. – afirmou. – Ficou chocado?
- Não! Estou lisonjeado. – devolvi tímido.
- Preciso te ver de novo. Quando e onde?
- Vamos combinar.
- Tão evasivo! Me dê o número do seu celular.
Ele inseriu o nome dele e seus telefones na minha agenda, depois colocou o celular dele diante de mim e mandou que eu fizesse o mesmo. Antes de descer do carro dele no estacionamento da biblioteca, ele me segurou pelo braço e discretamente me deu um beijo no canto da boca.
- Para você não se esquecer de mim! – exclamou
- Não vou esquecer! Mesmo por que amanhã devo estar com o ombro roxo. – brinquei.
- Pelo menos uma marca minha eu consegui deixar em você.
- Pode ter certeza de que deixou. – retorqui, sorrindo. Assim começou meu interesse pelo Caio.
Como o ano letivo mal acabara de começar, no final de semana seguinte estava programada a festa de recepção dos calouros. Era um evento do qual eu não gostava de participar. Como veterano do quarto ano de medicina, tinha outras aspirações que não aquela baderna de moleques. Rolava de tudo durante essas baladas, que aconteciam num amplo espaço próximo as quadras esportivas e que, invariavelmente, acabavam com a presença da polícia. Mas, este ano, a chance de ficar com o Caio, mudou meus planos. Por meio de uma troca de mensagens, combinamos de nos encontrar lá.
Faltava um quarto para a meia noite quando eu cheguei à balada. Estava adiantado, como sempre, motivado pela ansiedade. Mas, desta vez, não me censurei pelo adiantamento. A causa era boa. Ademais, me valeria destes minutos para dar uma rápida circulada e sentir o clima da festa, uma vez que não estava habituado e frequentar esse tipo de encontro. Tínhamos combinado de nos encontrar por volta de meia noite e meia. Então eu tinha tempo suficiente para ver o que rolava. Havia certamente mais do que duas mil pessoas e, a cada instante chegavam mais. Uma banda tratava de deixar a galera agitada, tocando versões das músicas do momento e, algumas composições próprias. Fazia a abertura para a atração principal, que era uma banda consagrada. Numa ala próxima a entrada, foram montados alguns quiosques que serviam bebidas e, estacionados alguns food-trucks, cujo cardápio ia de lanches a pratos rápidos, mas com toque de chef. O lugar era imenso e, apesar da quantidade pessoas, não parecia tão abarrotado. Isso só aconteceria em plena madrugada, no auge da festa. Enquanto andava por entre a multidão, fui abordado por uma garota, da qual a princípio não me lembrava, mas ela havia me reconhecido das aulas de anatomia. Um ano antes eu fui monitor da disciplina e ela cursava, se não me engano, enfermagem. Estava acompanhada de dois sujeitos. Percebia-se que não tinham o mesmo nível que o restante da galera da festa. Talvez nem fossem estudantes. Especialmente um deles, que aparentemente já tinha passado da idade de frequentar essas baladas. O outro, era mais jovem, tinha duas enormes tatuagens que cobriam quase inteiramente os dois braços e, uma delas, a do lado direito, se estendia até o pescoço. Não identifiquei os desenhos, mas elas lhe davam um aspecto marginal. Sem me concentrar muito na conversa que ela começou a entabular comigo, mesmo porque eu estava aguardando a ligação do Caio para definirmos o local exato do nosso encontro, que girava em torno de assuntos voltados ao curso que ela fazia, deixei-a falar e, só esporadicamente, respondia em monossílabos. Os dois permaneciam calados, aparentemente não conseguiam compreender o conteúdo da conversa dela. Depois de um bocado de insistência e, para me ver livre deles o quanto antes, aceitei o convite para pegarmos umas bebidas num quiosque. Sem perguntar por minha vontade, ela fez o pedido de quatro drinques a base de gin e suco de tangerina. A despeito da cor sedutora, percebi um fundo amargo depois de dois goles e, mantive o copo nas mãos com a intenção de me livrar dele e do resto do conteúdo tão logo me visse livre deles. Os dois caras sorveram o conteúdo do copo num trago só, pude perceber que se deleitaram com a experiência, talvez porque não tenha lhes custado nada. Foi a garota quem pagou pelas bebidas, inclusive a minha, que eu me preparava para reembolsar, quando senti uma ligeira vertigem. Ela se recusou a aceitar a cédula que eu lhe estendi. Não fiquei insistindo e tratei de encontrar uma desculpa para me afastar deles. Tirei o celular do bolso e me preparava para ligar para o Caio quando a vertigem voltou desta vez mais intensa, a ponto de me turvar a visão do teclado. Intimamente comecei a maldizer o fato de não ter comido praticamente nada no jantar, ansioso com minha saída e, por não ter sido mais enfático na recusa da bebida. Antes de enfiar o celular no bolso, vi que a tela mostrava que haviam se passado alguns minutos depois da uma da madrugada. Pensei na imposição do Caio naquela manhã quando combinamos nosso encontro – Não se atrase! – salientou, mas o atrasado era ele. Comecei a sentir engulhos e saí à procura de um banheiro. Os mais próximos ficavam num edifício que dava suporte às quadras esportivas. Mal pude identificar meu rosto no espelho, de tão turva e distorcida que estava a minha visão. Eu suava em bicas apesar da temperatura amena para uma noite de verão. O enjoo se intensificou e antes que pudesse chegar ao vaso sanitário, um líquido bilioso e azedo se projetou pela minha boca. Os sons que entravam nos meus ouvidos eram tão agudos e dissonantes que chegavam a incomodar. Foi a última sensação que me atingiu, antes de tudo se apagar.
Uma luz intensa atingiu minha retina quando tentei abrir os olhos. A minha volta ecoavam sons ocos. Minha cabeça girava como se eu estivesse mergulhado numa centrífuga.
- Bom dia cinderela! Ou melhor, boa tarde! – a voz inidentificável de um homem vinha de algum lugar ao meu lado. Não achei que se referia a mim.
- Não se engane. Ele está despertando, mas não vai compreendê-lo. Vai demorar algum tempo para poder concatenar as ideias. – sentenciou outra voz desconhecida.
Notei que estava deitado sobre algo firme. Senti meu corpo pesado e dolorido, como se tivesse exagerado nos exercícios físicos. Logo identifiquei uma dor mais aguda e pungente vindo do ... seria possível? Vindo do meu cuzinho. Sim, era das entranhas da minha pelve que ela nascia, torturante e lacerante.
- Onde estou? Quem são vocês? – balbuciei, sentindo a garganta seca ardendo.
- Você está no Instituto Médico Legal. Eu sou doutor Mario e este é o doutor Galhardo, delegado de polícia. – respondeu a fisionomia que ia se tornando mais clara, e me fez enxergar um homem de meia idade num jaleco branco.
- O que significa isso? Por que estou aqui? – as palavras passavam pela minha garganta como se fossem uma lixa.
- Isso quem vai nos dizer é você. Há muita coisa que você terá que explicar meu rapaz. – disse o sujeito que trajava um terno mal ajambrado. – Quando o doutor acha que os exames toxicológicos estarão prontos? – dessa vez ele se dirigia ao médico que, mais uma vez, colocava o estetoscópio gelado abaixo de um dos meus mamilos, enquanto com a outra mão sentia a minha pulsação no braço esquerdo.
- Acredito que em dois ou três dias o senhor deve estar de posse deles. – respondeu o médico.
- Essa molecada abusa das drogas e depois sai por aí fazendo besteira. O pior é termos que perder nosso tempo com esses filhinhos de papai! – exclamou o delegado.
Eu caminhei com dificuldade até a viatura da polícia que estava estacionada próxima à entrada principal do IML. Meu cuzinho doía muito e parecia que internamente meus órgãos haviam sido demudados. Um policial civil me apertava o braço enquanto caminhávamos. O delegado seguia na frente e, assim que o outro policial que estava recostado na viatura nos avistou, abriu a porta traseira para que eu entrasse. Chegamos à delegacia cerca de quarenta minutos depois. A viagem transcorrera num silêncio só quebrado por alguns rosnados do delegado diante de um congestionamento. À medida que eu ia passando os rostos iam se virando na minha direção. As fisionomias me transmitiam o que perpassava a mente daqueles sujeitos, curiosidade, indiferença, desprezo, intolerância. Afinal, eu não passava de mais um daquelas centenas de meliantes que entravam naquela delegacia todos os dias.
- Levem-no até uma das celas! Depois vamos proceder ao interrogatório e terminar esse maldito BO. – disse o delegado, soltando uma esbaforida e tomando assento atrás de sua mesa, sobre a qual havia um prisma com a inscrição ‘delegado titular’ logo abaixo de seu nome.
- Mas eu fui vitima de um atentado! – esbravejei, reunindo todas as minhas minguadas forças. – Quero saber por que estão me prendendo!
- Meu rapaz! Você está metido numa bela encrenca. Antes de continuarmos com o BO vou deixar que faça umas ligações. Aconselho-o a entrar em contato com seus pais e, pedir que tragam um advogado. Agora tirem esse garoto da minha frente, ou eu mesmo o jogo para dentro de uma cela com um pontapé nos fundilhos. – rosnou o delegado. Ah! E vejam se arranjam alguma coisa, além desse avental ridículo, para cobrir a bunda desse moleque.
O mesmo policial que me escoltara até a viatura me levou até outra sala onde me estendeu uma camisa pelo menos três números acima das que eu usava. Não estava limpa, mas era mais casta do que aquele avental esdrúxulo, amarrado nas costas, com o qual cobriram meu corpo nu enquanto estava no leito do IML e, que deixava minhas nádegas impudicamente expostas. Depois ele me levou por um corredor de onde se debruçavam dezenas de presos pelas grades das celas abarrotadas. Eu nunca havia entrado numa delegacia e, aquela cena, mais do que me chocar, me apavorou. Os gracejos ecoavam enquanto eu passava diante das celas. Quando o carcereiro abriu uma delas e me mandou entrar, pensei que fosse desmaiar. Havia uns quinze detentos lá dentro, um cheiro nauseabundo de suor e urina empestava o ar. Um buraco se abriu entre os presos para que eu entrasse. Todos me examinaram de cima abaixo como se eu fosse um alienígena, antes de começar a zombaria.
- Calem a boca! Parece que nunca viram outro meliante sendo preso. – exclamou o carcereiro, trancafiando a porta.
Senti a primeira mão entrando por debaixo da camisa larga, que me chegava até a metade da coxa, enquanto ainda estava sob o efeito angustiante da detenção. Afastei com um soco o braço que se insinuava entre as minhas coxas, enquanto uma gargalhada geral explodia na cela.
- Lisinhas feito bundinha de nenê! – exclamou o mulato que me apalpava.
- Tô vendo que essa noite vou tirar o atraso desse aqui! – exclamou outro sujeito que levou uma das mãos ao volume que se formou sob a bermuda que estava trajando. Nova onda de gargalhadas ecoou, fazendo com que um burburinho se formasse até nas outras celas.
- Por que te enjaularam bichinha? – perguntou um sujeito barbudo com o torso nu exposto. – Tu tava queimando a rosca em lugar proibido?
- O viadinho está sem cueca, deu pra sentir. – sentenciou o que havia me apalpado.
- Ele não deve ser do tipo que usa cueca, não é belezura? – questionou outro que se aproximou ameaçadoramente de mim, vindo dos fundos da cela. – Seria um pecado esconder essa carne tenra embaixo de uma cueca de macho. – emendou, antes de agarrar minhas nádegas e me trazer para junto dele.
- Me solta, cara! – berrei.
- Não vá se fazer de difícil aqui dentro! É melhor pra tu liberar geral para a galera, ou vai ficar moidinho, sacou? – grunhiu, seguro de si. Logo compreendi que ele é quem dava as ordens por ali, uma vez que todos estavam esperando a manifestação dele com um certo respeito.
A fim de confirmar sua valentia diante dos outros presos, ele enfiou mais uma vez a mão por debaixo da camisa e apalpou ostensivamente uma das minhas nádegas, enquanto me encarava desafiadoramente. Dei uma joelhada com toda a força entre suas pernas, a ponto de sentir os bagos dele sendo espremidos contra o osso pélvico. Os olhos dele se arregalaram antes que um grito estertoroso chegasse a sua garganta e, ele colocasse as duas mãos entre a virilha contorcendo-se de dor.
- Filho da puta! Cê tá fodido viado! – berrou, sem conseguir se mover, enquanto continuava dobrado sobre si mesmo.
- Filho da puta é você seu merda! Não pense que vai tirar uma com a minha cara! – gritei encolerizado.
Assim que conseguiu ficar de pé ele partiu para cima de mim. A primeira bordoada acertou em cheio o lado direito do meu rosto e um zumbido se formou dentro do meu ouvido, tornando os sons, ao meu redor, quase inaudíveis. Comecei a gritar feito um desesperado. Ao mesmo tempo formou-se uma algazarra geral que se espalhou pelas demais celas. Todos queriam saber o que estava rolando. O tumulto trouxe para o corredor um carcereiro, que enfiou a cara na cela e deu o alarme de briga. Logo apareceram mais dois policiais, outro carcereiro e um sujeito jovem e parrudo vestindo um terno que se ajustava sobre o corpanzil musculoso. Eu o tinha visto de relance quando fui levado para a sala do delegado titular. O olhar dele acompanhou interessado cada um dos meus passos e, me lembro de ter sentido muita vergonha por estar com aquele avental ridículo, ainda por cima descortinando minha bunda.
- Que porra é essa aqui? Todos encostados na parede, agora! Júlio desce o cacete no primeiro filho da puta que tentar se mover. – berrou autoritário.
- Ele estava abusando de mim e começou a provocação. – balbuciei, tentando articular a minha mandíbula que parecia não estar em seu devido lugar.
- Cala a boca! Não quero saber de desculpas. E pouco me importa quem começou. Não quero ouvir mais nenhum nhenhenhém, ou o cassetete vai descer no lombo de todos, sem exceção. – vociferou, enquanto os presos, em silêncio, baixavam o olhar sem ousar encarar o sujeito nos olhos. – Quem foi que mandou colocar esse moleque nesses trajes dentro da cela? – perguntou ao carcereiro que tinha desembainhado o cassetete, pronto para encarar um motim.
- Foi o delegado Galhardo. Era para ele esperar até que seja concluído o BO. – respondeu o carcereiro solícito.
- Mal chegou e já está arrumando confusão. Tirem-no daí! – ordenou. – E essa cambada, todos ajoelhados no chão! Pode abrir Júlio.
Ao passar por ele encarei sua fisionomia solidária. Balbuciei um ‘obrigado’ sussurrado e tímido. Embora seu rosto continuasse carrancudo, pude perceber que seus olhos sorriam. Ele me acompanhou pelo corredor das celas, onde um silêncio forçado e reprimido havia se formado. Ele e os dois policiais me levaram a uma sala, onde as paredes encardidas, e uma fileira de janelas junto ao teto serviam de abrigo para uma mesa redonda cercada por cinco cadeiras.
- Sente-se! – ordenou, quando a porta se fechou atrás de nós. – Que diabo de roupa é essa? – perguntou, debruçando-se sobre a mesa com os punhos fechados.
- Ele é o garoto que chegou esta manhã quase pelado, doutor Enzo. Foi o que deu para arranjar para que ele não continuasse com a bunda de fora. – apressou-se a explicar um dos policiais, antes que eu pudesse responder.
- Não é a toa que aquela macharada começou a arrumar confusão. Você faz ideia de quanto tempo alguns daqueles caras não dão uma boa trepada? Aí aparece você só com essa camisa que mais parece uma minissaia. Você pode imaginar até onde vão as fantasias deles? – perguntou, me encarando.
- Não é culpa minha eu estar sem as minhas roupas. Eu não sei o que aconteceu e nem que fim elas levaram. Não estou usando essa coisa nojenta por vontade própria. E foi aquele delegado que me colocou naquele covil. – retruquei ofendido.
- Linguinha bem afiada a sua. Alguma você deve ter aprontado para estar nessa situação. O que foi? – inquiriu, no exato momento em que o velho delegado irrompeu pela porta.
- Quer dizer que você continua dando alteração! Não conseguiu ficar nem duas horas numa cela antes de arranjar confusão. – vociferou.
- Não fui eu quem começou a briga. Eles estavam tentando me estuprar por sua culpa. Me colocar junto com aqueles bandidos foi uma ideia de gerico. – revidei
- Meça suas palavras garoto! Você já está ferrado, e eu posso complicar a sua situação se continuar me desacatando, entendeu? – gritou, ao mesmo tempo em que desferia um soco sobre a mesa. – E você, por enquanto, é suspeito de ser tão bandido quanto aquela corja!
- O senhor não pode afirmar isso! Devia estar preocupado em descobrir o que me aconteceu. – respondi, sem baixar o olhar com o qual o encarava com desprezo.
- O que aconteceu é que você foi a uma dessas baladas onde vocês jovens enchem a cara, se drogam até não poder mais e, depois, começam a arrumar confusão. Para começo de conversa eu quero que você me explique isso aqui. – sentenciou, jogando sobre a mesa um maço de fotografias bem ampliadas.
Nelas eu aparecia deitado de lado, com uma perna levemente erguida, como se estivesse dormindo e, difícil admitir, mas com um caralhão de borracha enfiado até o talo no cu, deixando de fora apenas o que seria o sacão. Ao meu lado estava a garota que eu havia encontrado assim que cheguei à festa. Seu rosto estava estranhamente retorcido, ela também estava completamente nua deixando ver o corpo coberto por hematomas e, pelo olhar que transmitia uma sensação de terror, pude constatar que estava morta. Para completar a cena que a fotografia enquadrava, havia um rapaz sem camisa com o braço sobre o corpo da moça, o ventre virado para o chão e uma poça de sangue ao redor da sua cabeça. As demais fotografias mostravam a mesma cena horripilante em ângulos diferentes, ora com mais aproximação e detalhamento, ora focando os três corpos deitados entre um capinzal revolvido.
- Só você está vivo. Os outros dois já estavam mortos quando chegamos ao local. Agora será que é possível o senhor me explicar o que estas fotografias enquadraram? – perguntou o delegado.
- Não....não, não sei o que dizer. Eu não me lembro de nada. Como foi que eu fui parar ali? – consegui exprimir-me confusamente. Minha cabeça latejava e um mal estar começou a se apoderar de mim.
- Pois bem! A encrenca é essa. E, como só temos o senhor para nos dizer o que foi que aconteceu ontem a noite, eu espero respostas convincentes e verdadeiras. – retrucou, sentando-se numa das cadeiras.
Eu comecei a relatar os fatos com a maior precisão e na ordem cronológica que conseguia me lembrar. Mencionei com destaque que só havia ido à festa para encontrar um amigo e que havia tomado uma bebida que a garota da foto havia pedido e pago num dos quiosques. Que mal a conhecia e nunca tivera qualquer envolvimento com ela. E, que também não conhecia o rapaz que estava ao lado dela na foto. Nunca o tinha visto na vida. O delegado deixou que eu falasse por um bom tempo, antes de começar seu interrogatório. As perguntas iam ficando cada vez mais pessoais e íntimas. Quando não tinham nada haver com o fato de eu ter ido aquela balada, comecei a refrear as respostas, ou as dava muito suscintamente.
- O senhor não está ajudando muito. Quero respostas mais convincentes. – intimou, a certa altura.
- Mas é tudo o que eu sei. – respondi sincero.
Recusei-me a entrar em contato com os meus pais, conforme o delegado havia sugerido, por não querer dar o desgosto de terem que tirar um filho das mãos da polícia, ainda mais diante da sordidez da minha situação. Só de pensar no meu pai vendo aquelas fotografias eu começava a sentir calafrios. Como eu ia explicar aquele objeto monstruoso entalado no meu cuzinho? Para os meus pais, que moravam noutra cidade, eu era motivo de orgulho. Era mais um dos filhos que saíra debaixo das asas protetoras e provedoras deles para se fazer na vida. Definitivamente estava fora de cogitação trazê-los para São Paulo para sofrerem uma decepção destas.
Lembrei-me de uma amiga que comentara ter um irmão advogado, que estava fazendo uma carreira bem sucedida num escritório de renome. Ela me colocou em contato com ele e, este por sua vez, por não atuar na área criminalista, me indicou um amigo de faculdade, com o qual, segundo ele, eu estaria muito bem assessorado.
Armando não demorou nem duas horas para me encontrar na delegacia. Desde o incidente na cela, eu permanecia isolado dos demais presos na mesma sala onde o delegado havia me ouvido informalmente. Armando devia ter uns trinta e poucos anos, era um tipão para ninguém colocar defeito. Pelo menos a mulherada e caras como eu, que se ligavam num cara másculo com as características dele, gentil, educado, muito seguro de si, além de lindo feito um Apolo. Mais uma vez me senti ridículo e aviltado quando ele entrou na sala e me viu quase nu naquela camisa medonha. Quando ele chegou eu estava reexplicando, pela milionésima vez, para o delegado Enzo, os fatos dos quais me lembrava até ver tudo escurecendo na minha frente.
- Como é do conhecimento do senhor, meu cliente não deveria estar conversando com o senhor, ou com quem quer que seja, sem antes ter sido orientado por seu advogado. Prazer, Armando Gontijo! – sentenciou enérgico e, deixando evidente que não tinha prazer algum em encontrar aquele delegado jovem conversando com seu cliente.
- Evidente. O Rodrigo e eu, quero dizer, seu cliente e eu, só estávamos tendo uma conversa informal, conforme ele mesmo pode atestar. E, o prazer é todo meu! – respondeu irônica e secamente o delegado Enzo. Ele nem tentou disfarçar a raiva que sentia por estar sendo censurado e, muito menos, o fato de ter percebido um olhar mais do que atrevido e cobiçoso, daquele sujeito bem-posto para a minha pessoa.
- Já que estamos entendidos, eu agradeceria se pudesse conversar com meu cliente a sós. Depois disso, estaremos prontos para o depoimento formal. – determinou.
Simpatizei de cara com o Armando. Depois de ter-lhe explicado tudo o que aconteceu, sendo interrompido, uma ou outra vez, por perguntas que ele fazia para obter um detalhamento maior, fiquei convencido de sua capacidade. E, é claro, de que o interesse dele pelo meu caso não se restringia apenas à relação cliente-profissional. Havia algo na expressão do olhar dele que, além de me cativar, me deixou bastante intrigado, no bom sentido.
O delegado Galhardo tomou meu depoimento na sequência. Além do escrivão, estava presente o delegado Enzo, que quase não abriu a boca durante todo o interrogatório. Não mais do que duas ou três vezes, interveio com uma questão muito bem colocada que, pela minha percepção, tinha o objetivo de causar uma boa impressão no meu advogado. Ou eu estava enganado, ou aquele depoimento estava servindo de embate entre os dois, cada um tentando mostrar o quão bem capacitados eles eram. Na situação desastrosa em que me encontrava, não consegui atinar com a razão de tudo aquilo.
Concluído o depoimento, o Armando me explicou que não seria possível revogar a minha prisão cautelar antes de cinco dias, que era o tempo mínimo para que a polícia pudesse continuar com as investigações, depois disso ele entraria com um habeas corpus, e eu podia continuar a responder pelo inquérito em liberdade. Oficialmente eu me tornara suspeito do assassinato da garota e do rapaz que foram encontrados junto comigo, totalmente alterado pelo uso de alguma substância. Antes de ele partir, pedi que me arranjasse umas roupas e produtos básicos de higiene, pois não aguentava mais sentir aquele trapo sobre o meu corpo. Ele atendeu meu pedido com satisfação e bom gosto.
- Vejo que seu advogado foi muito prestativo e apressado em lhe trazer roupas para cobrir seu corpo. Talvez porque não consiga lidar com o mesmo tipo de olhar lupino com o qual ele próprio ficou secando você. – disparou o delegado Enzo, quando foi ter comigo na cela improvisada, antes do anoitecer.
- Não entendi esse escárnio, o que o senhor quer dizer com isso? – retruquei.
- Não é nada não, estava só pensando alto. Vai precisar se arranjar nesse colchão que mandei trazer aqui. Não temos uma cela especial para filhinhos de papai nesta delegacia. – disse ele em seguida.
- O senhor faz uma ideia muito equivocada a meu respeito. Não faço questão de nenhum tipo especial de acomodação num ambiente como esse, no qual, aliás, nunca estive antes. Apenas não quero ser estuprado por um bando de criminosos, como estaria sujeito se continuasse naquela cela. – respondi irritado.
- É isso seria mesmo um pecado! – exclamou, num tom quase inaudível.
- O que disse?
- Continuo pensando com meus botões, não é nada não. – respondeu.
O Armando voltou no dia seguinte, como o faria em todos os outros dias subsequentes enquanto estive preso. Trouxe uma caixa de chocolates, e um café, ainda fumegando, que ele equilibrava numa das mãos. Abriu um sorriso largo e cativante quando me viu.
- Trouxe isso para amenizar sua espera pela soltura! – exclamou, transbordando vitalidade.
- Obrigado! Você é muito atencioso. Acho que nunca teve um cliente tão desesperado e ansioso, não é? – respondi.
- Você está longe de ser dos piores que já atendi. Mas, não se aflija, isso vai terminar logo, eu garanto. – disse, com uma calma e certeza que ia além do aspecto profissional.
- É bom ter você aqui comigo. Nunca passei por uma situação dessas. E, nunca me senti tão só. – balbuciei, enquanto um nó travava a minha garganta.
- Ei, ei, ei....o que é isso? Não fique assim. Tudo vai acabar bem. – revidou, me abraçando e trazendo meu corpo para junto do dele.
Não sei quanto tempo me deixei ficar recostado naquele peitoral largo, que me pareceu tão sólido e seguro como uma rocha. Ele tinha um cheiro amadeirado que me tranquilizou. Percebi que ele não tinha pressa alguma em se apartar de mim e, que ele aspirava, deleitado, a pele do meu pescoço.
- Oh! Espero não estar interrompendo nada de muito especial. – ironizou o delegado Enzo, quando entrou na sala e, nos flagrou abraçados.
- Foi um momento inoportuno, mas o senhor não está interrompendo nada não, delegado! – respondeu o Armando, contrariado pelo parêntese criado.
- Aliás, foi bom encontra-lo aqui, doutor. Assim, o senhor poderá se inteirar dos novos fatos junto com o seu cliente. Acompanhem-me até a sala do delegado titular, por favor. – as palavras dele soavam ásperas e agressivas.
- Novos fatos? Descobriram como fui envolvido nessa trama? – questionei ansioso.
O delegado Galhardo apagou o resto do cigarro que estava fumando, na ponta de sua mesa, que exibia as marcas queimadas desse hábito que há muito devia estar se repetindo. A sala fedia a tabaco. Ele havia pendurado o paletó no encosto da cadeira e estava com as mangas da camisa, apertada sobre o abdômen saliente, arregaçadas até o cotovelo, exibindo os braços extremamente peludos.
- Temos novidades no seu caso, garoto! – exclamou, fazendo girar a cadeira na qual estava sentado e dando-se ares de autoridade. – A nosso pedido o juiz determinou a quebra do seu sigilo telefônico e, apesar de não sabermos do paradeiro do seu celular, obtivemos uma transcrição bastante interessante de uma conversa sua com aquele seu amigo, que o senhor alegou estar aguardando na festa.
- Então ele pode confirmar a minha história. Eu não disse que eu não tenho culpa nenhuma. – exclamei, contente com a possibilidade de me ver livre daquilo.
- Um momento mocinho! Não vá se entusiasmando! Seu ‘amigo’ ainda não foi localizado em nenhum dos lugares onde o senhor nos indicou. – sentenciou, gesticulando no ar um parênteses quando mencionou a palavra amigo.
- Como assim? Ou ele está na casa dele ou amanhã, que é segunda-feira, estará na faculdade.
- Vou ler o trecho mais interessante dessa transcrição se, me permite doutor? – disse, dirigindo-se ao Armando, que concordou com um meneio da cabeça. - Na primeira conversa entre eles na manhã do ocorrido, eles combinam a hora e local do encontro e há mais umas frases de um blábláblá sem importância. Mas, na ligação que seu cliente fez naquela tarde, para ser mais preciso, às dezesseis horas e vinte e três minutos, há uma conversa deveras picante. – continuou, passando a esboçar um risinho sarcástico. Eu que até então estava de pé junto a uma cadeira, precisei me sentar, pois me lembrei de cada palavra que disse ao Caio naquela ligação.
Rodrigo: Oi! Sou eu novamente. Só para ter dizer que estou ansioso pelo nosso encontro dessa noite.
Caio: Oi! Que bom ouvir sua voz. Estou com tesão só de imaginar você falando assim bem juntinho de mim. Meu pau chega a estar latejando.
Rodrigo: Fico feliz de saber que está com tesão. Prometo que vou fazer tudo para você não ter que deixa-lo tão na vontade.
Caio: Hummm....promessa é divida, não se esqueça! Desde que coloquei o olho nessa sua bundinha não paro de sonhar e de me punhetar pensando nela.
Rodrigo: Vou tornar seu sonho realidade. Também estou morrendo de tesão por você.
Caio: Posso ter uma prévia de como você vai realizar o meu sonho?
Rodrigo: Qual eu começar colocando a sua glande babona entre os lábios e te chupar de mansinho?
Caio: Arfff!!! Já estou melando a cueca. Não sei se vou aguentar muito tempo essa sua boquinha doce chupando meu cacete, é capaz de eu gozar tudo na sua garganta.
Rodrigo: Eu vou adorar.
Caio: Não brinca assim! Você está me deixando doido.
Rodrigo: A intenção é essa mesmo. Beijão e até a noite.
Caio: Beijão e uma mordidela nesses seus peitinhos de virgem. Não se atrase! Ou vai precisar pagar pedágio.
Rodrigo: Não vou me atrasar, prometo.
- Não é interessante, doutor? Agora temos uma pista do porque do seu cliente ter aquele brinquedinho incrustado em um lugar tão peculiar de sua anatomia. – sentenciou o delegado, depositando as folhas que acabara de ler diante do Armando.
- Isso não prova nada! Muito menos que meu cliente esteja envolvido no crime. Não sejamos ingênuos, delegado. O senhor sabe disso muito bem. – retorquiu o Armando com firmeza.
- É provável. Mas nos dá uma pista da motivação que levou seu cliente até a balada. Não é meu jovem? – ironizou, dirigindo-se a mim.
- Mas não aconteceu nada disso. Eu já falei que ele não apareceu. E, que logo após ter chegado ao local eu perdi os sentidos e não me recordo de mais nada além do que relatei. – retruquei exasperado.
- Bem! As investigações continuam. Sinto que ainda teremos mais surpresas neste caso. – declarou.
O delegado Enzo que também estava na sala não disse uma palavra, como de costume. Ficou me encarando, estudando cada uma das minhas reações enquanto o delegado Galhardo lia a transcrição da conversa telefônica.
Os dias foram passando e o Caio não foi localizado. Eu estava tão transtornado que comecei a achar que ele havia preparado uma armadilha para mim. Mas, com que propósito? Eu sabia que havia acontecido uma empatia entre nós dois. Isso era real. Não era fruto de uma aspiração romântica e pueril. Ou será que eu podia ter me enganado tanto a respeito de suas intenções. De um momento para o outro, eu não tinha mais certeza de nada. Só que aquele pesadelo parecia não ter fim.
No dia seguinte o delegado Enzo entrou na sala que me abrigava pouco depois das seis horas da manhã. Eu estava trajando apenas um short e estava suado. Acabara de ter outro pesadelo. Seu olhar varreu o meu corpo, mas eu estava transtornado demais para notar.
- Bom dia! Você parece que não teve uma noite muito tranquila, não é? – disse, observando eu me colocar de pé. – A família do seu amigo disse que ele está viajando. Segundo consegui apurar até o momento, parece que ele viajou no mesmo dia em que supostamente vocês se encontrariam. Você faz ideia de onde ele possa ter ido? – inquiriu.
- Não vá me dizer que agora também serei acusado do desaparecimento do Caio. Não. Isso não pode estar acontecendo comigo! – exclamei desesperado, caindo num choro convulsivo.
- Quem disse que ele está desaparecido? Você foi o último a conversar com ele. Não há mais nenhum registro de conversas dele com quem quer que seja desde aquele dia. – sentenciou lacônico.
- Eu não sei. Eu não sei. Eu não sei. Quantas vezes vou ter que repetir isso? – berrei.
Decorridos os cinco dias da prisão cautelar, o Armando conseguiu minha liberação por meio do habeas corpus, me permitindo responder ao inquérito em liberdade. Mal pude conter a emoção quando entrei no meu apartamento. Ele foi um presente do meu pai quando entrei na faculdade. A mobília escolhida tão zelosa e prazerosamente, os meus objetos pessoais cuidadosamente organizados, mas distribuídos displicentemente pela sala, indicando que havia uma vida por trás de cada um deles e, o cheiro reconfortante, que só a nossa própria casa tem, me fez valorizar, ainda mais, aquele espaço que eu habitava. A primeira coisa que fiz, foi me enfiar debaixo da ducha para me livrar daquela nhaca da cela da cadeia que parecia ter se impregnado na minha pele. Eu estava me enxugando quando o interfone tocou. Era o Genilson, um dos porteiros, informando que estava subindo para entregar a correspondência que havia se acumulado durante a minha ausência.
- Oi Rodrigo! Que bom que está de volta. Ninguém sabia que você estava viajando. – disse, com aquele seu sorriso de mandrião, assim que abri a porta. – Aqui está a sua correspondência. Resolvi trazer logo, pois sabe como é, o ‘seu’ Fernando não gosta de ver as coisas acumuladas lá em baixo, vai logo dando uma bronca na gente. – emendou, referindo-se ao síndico. Nesse instante percebi que ele não desgrudava seu olhar lupino de mim e, que eu tinha vindo atender a porta trajando unicamente um short.
- Obrigado Genilson! Nossa, acumulou muita coisa mesmo. O pior que, ou são contas para pagar, ou é propaganda que vai diretamente para o lixo. – retruquei, um tanto quanto acanhado com aquele olhar despudorado. E, nada revelando sobre o meu paradeiro dos últimos dias. Seria um prato cheio para as fofocas do condomínio.
- Não vai rolar aquele suquinho de frutas? – perguntou, na cara dura, pois eu costumava lhe servir um suco toda vez que ele vinha com a correspondência. – Tá um calorão lá em baixo na portaria. Não tem essa mordomia de ar-condicionado fresquinho. – brincou, deixando transparecer seu interesse em prolongar aquela oportunidade de me ver vestido sumariamente.
- Êta paraibano folgado! Entra! Fecha essa porta e vem aqui na cozinha. – respondi, caminhando a frente dele, rumo à cozinha para preparar um suco.
- Não pense que eu quero abusar. É que não são todos que tratam a gente direito, feito você. A maioria nem olha na nossa cara quando passa pela portaria. – revidou num muxoxo.
- Deixa de ser resmungão! Um homão desse tamanho, choramingando feito criança. Onde já se viu? – retorqui.
- Não estou resmungando não. É a pura verdade. Fica lá em baixo e você vai ver com seus próprios olhos se não é verdade. – continuou lamuriento.
- Vai logo! Toma esse suco e chispa. Depois fica reclamando que o ‘seu’ Fernando pega no pé de vocês. Alguém tem que por ordem nessa cambada. – devolvi, abrindo um sorriso na direção dele. Eu já tinha notado que o sem-vergonha gostava quando eu sorria para ele.
- Eu já estava com saudades dos teus carões! – exclamou, atrevido.
- O que é que é isso? Fala língua de gente, e não paraibano. Quem é que vai entender esse idioma? – devolvi.
- Carão é bronca, lá na minha terra. – respondeu, dando risada.
Dos porteiros do condomínio, Genilson era aquele de quem os moradores mais gostavam. Era novo ainda, talvez nem tivesse chegado aos trinta anos. Fazia o tipo galã de periferia. Mulherengo ao extremo, não perdia a chance de dar em cima das empregadas dos condôminos, especialmente as solteiras. Elas, por sua vez, não o poupavam de seus gracejos e se ofereciam feito vadias aos predicados de macho arretado. Minha simpatia por ele começou pouco depois de eu me mudar para o condomínio. Eu costumava sair muito cedo pela manhã para ir à faculdade. Fazia isso para evitar o trânsito e, também, para conseguir uma boa vaga próxima ao prédio da faculdade, no estacionamento que quase sempre não comportava todos os carros dos estudantes e professores. Certa manhã, ao passar apressado para pegar o meu carro na garagem, passei diante do depósito de suprimentos do prédio. Pela porta entreaberta saíam uns gemidos afobados e devassos. Me aproximei cautelosamente para não ser percebido e, pela fresta aberta vi o Genilson com as calças arriadas, a camisa desabotoada expondo o torso másculo e peludo, metendo a pica numa moreninha peituda, de ancas largas, que se agarrara ao pescoço dele enquanto enlaçava com as pernas a cintura dele. Devia ser a faxineira de um dos condôminos. Ela gemia e se entregava a sanha viril do Genilson, enquanto esse mantinha a cara enfiada entre as tetas desnudas da garota. Ele a segurava pelas coxas enquanto a apertava contra a parede, fodendo-a de modo selvagem e brutal. Fiquei tão estarrecido que deixei cair parte dos meus livros e cadernos de apontamentos, chamando a atenção deles. A empregadinha vadia deu um grito quando deu pela minha presença. Genilson tirou o cacetão duro e babando da vagina dela, e quase a deixou cair no chão. Ela ajeitou o vestido e saiu correndo, com as pernas meio abertas. Efeito da brecha que aquele caralhão arregaçou na sua buceta. Ele me encarou desolado, tal qual uma criança da qual se tirou uma guloseima das mãos.
- Seu Rodrigo! Bom ... bom dia, ‘seu’ Rodrigo! Eu ... eu não percebi que... o senhor precisa de alguma coisa? Desculpa o mau jeito ai ‘seu’ Rodrigo. – gaguejava atrapalhado, enquanto a jeba continuava escandalosamente empinada. – Foi mau! Mas, se o senhor puder não contar nada para o síndico. Ele vai me botar na rua.
- Bela sem-vergonhice, hein Genilson? A essa hora da manhã, nem amanheceu direito ainda! – exclamei, tripudiando com a situação e tentando deixa-lo ainda mais sem graça.
- Na moral, ‘seu’ Rodrigo. Não tem hora pra isso não. Faz tempo que aquela piranha tava me provocando. Passava lá na portaria e ficava se esfregando em mim. Mostrava que estava sem calcinha e sentava no balcão pra eu ver a xana dela. Eu sou macho, não deu pra segurar mais. – confessou, abotoando lentamente a camisa e, nem se preocupando em colocar aquele caralhão para dentro das calças.
- E se fosse aquela velhota encrenqueira, dois andares abaixo do meu, como é mesmo o nome dela? – inquiri. Inconscientemente eu também não conseguia tirar os olhos daquele membro descomunal. O Genilson não era um homem feio, tinha porte. Era, sem dúvida, um ogro, mas certamente, muito bem dotado como reprodutor.
- A dona Guilhermina! Nem me fale. Ela ia mandar chamar a polícia, tenho certeza. – respondeu.
- Também, não é pra menos! A velha ia ter um troço se visse esse cacetão na frente dela logo cedinho. Matava ela do coração! – exclamei brincando.
- Que isso ‘seu’ Rodrigo? Vai me deixar avexado. – devolveu. No entanto, seu olhar refletia o orgulho por ter seu instrumento valorizado.
- Isso tá mais pra cacete daqueles jegues que tem lá na sua terra. – zombei.
- A mulherada não reclama não. E, só aqui entre nós, vou contar um episódio para você. Um vizinho nosso lá do sítio em Gurjão, minha terra, tem um filho baitola. Eu não sou de botar reparo em homem, mas o garoto é bonito que só ele, da bundinha arrebitada. O moleque é muito jeitosinho, branquinho e lisinho assim feito o senhor. Um dia meti a chibata no butico dele no meio de uma roça de macaxeira, ele gritou, mas estava gostando. E, pra ser sincero, eu também. Naquele dia descobri que comer feofó de pirobo é mais gostoso do que metê em xoxota. É bem mais apertadinho e, dá um tesão da porra. Depois daquele dia eu sempre dava uma passada no sítio do vizinho, assim como quem não quer nada. Quando o garoto me via ficava todo assanhado e eu levava ele para a beira de um açude que ficava lá perto, ou a gente ia para o meio de uma roça mesmo. Só largava dele quando não aguentava mais gozar. – confessou.
- E eu lá quero saber das tuas sacanagens Genilson! – retruquei, dando uma de enfadado.
- É só pro senhor saber que, pra um macho feito eu, não é fácil botar rédea no bilau. Pro senhor ver a minha situação agora. A piranha se mandou e eu fiquei aqui com tudo entalado. Não cheguei a galar a xana dela. – disse, contrariado.
- Você é um jegue tarado mesmo! – exclamei, fazendo força para não rir. Intimamente ele saboreou o fato de eu o reconhecer como um machão arretado.
Foi uma delícia rolar pela minha cama entre a roupa de cama aconchegante que guardava o cheiro do meu perfume. Dormi a sono solto naquela noite depois de uma semana tendo pesadelos naquela cela improvisada sobre aquele colchão cheirando a mofo e naftalina. No entanto, não consegui dormir tanto quanto desejaria. Pouco depois das cinco da manhã o interfone tocou insistentemente. Eu me contorci entre os lençóis e tomei a decisão de não atender, estava exausto demais para atender quem quer que fosse. Não se passaram nem cinco minutos e parecia que a porta do apartamento estava sendo derrubada. Alguém a esmurrava com tanta força que achei que a estavam colocando abaixo. Saí cambaleando do quarto ainda sonolento. De nada adiantaram os meus berros dizendo que já estava indo. Era o delegado Enzo e mais dois investigadores.
- Bom dia! Por que não atendeu o interfone? – foi logo despejando de forma agressiva.
- É madrugada ainda! Mal se passaram doze horas desde que saí da delegacia. O que quer agora? – respondi enfurecido.
- Seu namoradinho foi sequestrado. O que pode me dizer a respeito disso? – questionou, enquanto seus olhos percorriam o apartamento.
- Quem? Que palhaçada de namoradinho é essa? Eu quero que saiam daqui agora mesmo. Vou ligar para o meu advogado e perguntar se isso é legal? – retruquei.
- Não tenho tempo e nem disposição para conversa fiada. Me diga, o que sabe sobre o sequestro do seu amigo desaparecido? – insistiu.
- Na delegacia você me disse que ele estava viajando. Como é que eu vou saber onde ele está se nem ao menos sabia que foi sequestrado? – respondi. – Se a polícia não fosse tão incompetente saberia se ele está viajando ou foi sequestrado, afinal me parece que são situações muito diferentes, não acha delegado? – continuei.
- Preste bem atenção, garoto. Eu lhe fiz uma pergunta direta e quero uma resposta. Não tenho o dia todo para esperar por sua resposta. – vociferou.
- Não queira se fazer de maduro e responsável na minha frente. Eu tenho vinte e três anos, não sou nenhum garoto! Você mal chegou aos trinta, se é que tanto, portanto não é nenhum exemplo de maturidade e eficiência para me tratar com essa soberba. – revidei.
- Tenho trinta e um, apesar disso não ser da sua conta. Passei a noite em claro em diligências e não estou com saco de aturar seus desaforos de menino mimado. Quer voltar para a delegacia por desacato? É só continuar me enchendo o saco que será esse o seu destino. O caso está em minhas mãos, e eu vou desvendar todo esse imbróglio, pode ter certeza! – retorquiu. – Vasculhem o apartamento! – ordenou, dirigindo-se aos investigadores que o acompanhavam.
- Você tem um mandato para fazer isso? É ridículo você achar que o Caio está aqui. Eu já repeti mais de mil vezes que não o vi nem naquela noite da festa por que ele não apareceu. – disse, indignado com tanta incompetência.
Os investigadores voltaram e sinalizaram que não havia mais ninguém no apartamento. O delegado os mandou conversar com o porteiro e eles desceram.
- Não queira me ensinar o meu serviço. Estou até aqui com a sua arrogância. – fez um gesto colocando a mão acima da cabeça.
- Já que não encontrou nada aqui, ponha-se daqui para fora. Eu estou na minha casa e prestei os esclarecimentos que me foram solicitados. Vocês, depois de uma semana, não descobriram nada, não conseguiram saber quem me vitimou e, ainda por cima, estão distorcendo os acontecimentos para colocar a culpa em mim. É bem a cara da polícia, quando não conseguem desvendar um crime, simplesmente inventam um culpado. – desabafei, percebendo que o Enzo se enfurecia a cada afirmação minha.
À medida que a nossa discussão avançava, eu notava que o tinha tirado do sério. Ele estava ficando cada vez mais irritado e zangado com os meus revides, o que ele chamou de petulância em dado momento.
- Você é muito atrevido! É um abuso você julgar que toda a polícia é incompetente. Você não passa de um fedelho dengoso. – sentenciou cuspindo fogo pelas ventas.
- Depois de cinco dias trancafiado naquela delegacia nojenta, enquanto vocês, teoricamente, estavam investigando o caso, qual foi o resultado? Nenhum. Tudo o que conseguiram foi vasculhar e infernizar a minha vida, invadir a minha privacidade, expor a minha sexualidade. Foi só o que as suas diligências conseguiram. Quanto a quem matou aquelas pessoas e a quem me colocou na cena do crime, nem sinal. Então me diga, onde está a sua competência? – retruquei.
Ele partiu para cima de mim como um leão enfurecido. A vontade dele era me assentar alguns bofetões na cara, mas algo o impediu de fazê-lo. Ele me prendeu numa gravata, fez meu corpo girar de forma que fiquei com as costas coladas no peito dele e me lançou sobre o sofá, deixando seu corpo musculoso cair em cima de mim.
- Seu troglodita! Macho bruto! – protestei, sufocado pelo braço peludo e forte dele, que comprimia minha garganta.
- Viadinho arrogante e gostoso! Há momentos em que tenho vontade de te esganar. – grunhiu entre dentes.
- É o que você está fazendo, seu mastodonte!
- Não é a conjunção ideal? Eu um macho bruto e você um viadinho tesudo da porra?
Antes que eu pudesse responder, senti o cacetão dele se esfregando na pele da minha bunda. Estava tão preocupado em discutir com ele que não me dei conta da agilidade com a qual ele arriou minha bermuda e abriu suas calças tirando aquele membro enorme do sufoco que o cerceava. Como se aquilo fosse aplacar toda a opressão que ele estava sentindo. Dando vazão a seus instintos predatórios, ele meteu aquela jeba excitada no meu cuzinho. O gemido desesperado de dor que eu soltei soou como uma rendição aos ouvidos dele. Minha pele parecia estar pegando fogo onde a dele tocava em mim. Aquela coisa truculenta que ia entrando no meu cu, pulsando freneticamente, foi aos poucos me dando ciência do vigor másculo do Enzo e, eu comecei a me entregar a melhor sensação que já havia sentido na vida. Aos poucos ele foi percebendo a minha capitulação aos seus caprichos voluptuosos, e foi substituindo a investida agressiva e brutal por movimentos de vaivém mais carinhosos e sensuais, usufruindo cada estocada no meu cuzinho apertado e quente.
- Gostoso! Bundudinho tesudo do caralho! Você me deixa maluco. – arfou, deixando que os jatos de porra jorrassem abundantes e aliviadores, na minha carne receptiva e acalentadora.
Enquanto eu tentava me recuperar desse ataque de sensualidade, eu me questionava sobre o fato de não ter percebido neste tempo todo, que homem era aquele. No que a minha mente estava concentrada que não fui capaz de notar o quanto aquele macho havia sido perturbado pela minha presença? Que aquela nossa rebeldia mútua em aceitar nossas diferenças não passava de uma atração afetiva não compreendida e aceita. De repente, percebi que aquele homem viril, que ainda respirava profunda e aceleradamente, deitado sobre mim, era tudo que eu havia sonhado e desejado.
Depois de algum tempo, ele já mais calmo, deslizou as costas dos dedos indicador e médio pelo contorno do meu rosto. Fazia isso tão suave e sutilmente que eu mal sentia o toque dos dedos dele. Consenti também nisso e deixei-o me acariciar. Num breve instante seus dedos pararam sobre os meus lábios, e eu os beijei com a mesma sutileza e carinho. Por fim, ele tirou o cacetão do meu cu. Gemi quando a cabeçorra distendeu minhas pregas feridas. Ele se pôs de pé e guardou a pica ainda não bem amolecida, ajeitando-a nas calças. Cobri pudicamente as nádegas puxando minha bermuda para a cintura e me levantei com um pouco de dificuldade, pois parecia que haviam cavado um túnel entre as minhas coxas. Não nos encaramos, e um silêncio constrangedor permanecia suspenso no ar. Acho que cada um de nós se perguntava, intimamente, que explosão havia sido aquela? Teria sido um simples desatino, ou era o resultado da tensão acumulada desde o primeiro instante que nos conhecemos? Ele fez menção de se retirar.
- Preciso ir. – disse, procurando pelo meu olhar, mas um pouco sem jeito.
- Está bem! – respondi, acompanhando seus passos até a porta.
- Confie em mim. Prometo que vou descobrir o que fizeram com você naquela noite. – pediu, saindo pela porta e dando dois passos em direção ao elevador, depois de colocar um cartão em minhas mãos onde constava o número do celular dele.
- Eu confio! – retorqui. No mesmo instante ele deu meia-volta, me puxou pela cintura junto ao corpo dele e colando a boca na minha, enfiou a língua nela, até sentir que eu a chupava sedutoramente.
Não tive notícias dele por uma longa e angustiante semana.
Retomei minhas atividades ainda sob o baque daqueles acontecimentos. Não encontrei o Caio na universidade e, os colegas dele me informaram que ele não estava frequentando as aulas há pelo menos duas semanas. Disseram também que inclusive a polícia estivera à procura dele. Comecei a achar que algo de muito ruim tinha acontecido com ele. E temi que tivesse tido o mesmo destino daquela garota e daquele rapaz. Resolvi passar na casa dele. Não tinha tido muita oportunidade de conhecer a família dele, senão por uma rápida passagem em que ele me apresentou a mãe e um irmão. Esse irmão foi quem veio abrir a porta quando cheguei e, por uns instantes, não me reconheceu. Percebi que estava tenso e relutou em me deixar entrar. Quando cheguei na sala da casa, havia muitos familiares dele e dois investigadores. Um deles era o mesmo que estivera no meu apartamento junto com o Enzo. Ele logo me reconheceu e me cumprimentou discretamente. O Caio havia sido mesmo sequestrado na tarde do nosso encontro. Os sequestradores fizeram contato com a família apenas três dias depois do sequestro, e começaram a exigir uma quantia vultosa para libertá-lo. A princípio, a família lidou com o fato sozinha, mas quando a polícia começou a procurar o Caio para checar a minha história, foi inevitável que ficassem sabendo do sequestro. Desde então, uma equipe especializada estava intermediando as negociações e instruindo a família. Ao voltar para casa naquela mesma tarde, meu celular começou a tocar enquanto eu estava no elevador. Não reconheci o número que aparecia na tela.
- Rodrigo! Sou eu, Caio. – a voz era ofegante e se misturava a uma zoeira de fundo, um barulho que se parecia com o de um trânsito pesado.
- Caio! Por onde você se meteu? Acabo de chegar da sua casa. Você foi sequestrado? – eu precisava de respostas.
- Eu consegui fugir do cativeiro. Estou nas margens da via Dutra, sentido Rio. Não liguei para minha casa, pois acho que os sequestradores estão monitorando nosso telefone. Você pode vir me buscar o mais breve possível? Estou numa espécie de restaurante-lanchonete de um posto de gasolina em Santa Isabel, eles me deixaram usar o telefone. – eu podia sentir a aflição dele em cada palavra.
- Claro! Estou indo. Você está bem, te machucaram? – comecei a entrar em pânico.
- Estou bem. Tome cuidado para vir para cá. – aconselhou.
Do telefone do apartamento liguei para o Enzo e contei tudo a ele, avisando que estava seguindo para lá.
- De jeito nenhum! Você vai ficar exatamente onde está. – ordenou, com aquela sua determinação que me tirava do sério.
- Você não vai reconhecer o Caio quando chegar lá. Vai precisar de mim para isso. – respondi.
- Temos uma fotografia dele. Mas, pensando bem, talvez você possa nos ajudar mais facilmente na identificação dele. Vou passar no seu apartamento e te pegar. Não faça nada antes de eu chegar aí. – mandão como sempre.
- Está bem, eu te espero.
Ele não demorou nem vinte minutos. Vinha acompanhado de mais duas viaturas e pelo menos meia dúzia de policiais. Também havia acionado a divisão antissequestro que acompanhava as negociações junto à família do Caio.
Encontramos o Caio com facilidade no local que ele havia indicado. Estava bem mais magro e bastante abatido. Tinha alguns hematomas nos braços e no rosto, provavelmente havia mais nas partes cobertas do corpo. Ele me abraçou com muita intensidade e desespero, como se o fato de me reencontrar fosse a confirmação de que seu sofrimento havia realmente terminado. A equipe da divisão antissequestro quis que ele lhes indicasse o local do cativeiro.
- Você acha que consegue voltar ao local do cativeiro? Provavelmente o marginal que estava tomando conta de você ainda não se deu conta da sua fuga. Temos a informação de que, há questão de pouco mais de meia hora, os sequestradores fizeram um novo contato com a sua residência. Podemos captura-los se nos levar até lá. – disse o sujeito barbudo e ligeiramente acima do peso que comandava o grupo.
- Vocês não veem o estado em que ele está? Como podem pedir para que ele volte aquele inferno? É muita falta de sensibilidade! – exclamei indignado.
- Fique bem quietinho! Não se meta. Eles sabem o que estão fazendo e, é muito importante por as mãos nesses criminosos. – sentenciou o Enzo, num tom de voz áspero carregado de censura.
O sujeito nem se dignou a me responder. Como o Caio havia concordado em leva-los até o cativeiro, não me restou outra opção senão me resignar. O local onde ele havia permanecido nas últimas semanas ficava em meio a uma favela nas proximidades da rodovia. Não era muito grande, apenas uns vinte ou trinta casebres erguidos com madeiras, chapas e telhas de refugo. Nenhuma viatura tinha identificação e a nossa chegada não chamou muito a atenção, pois ao longo da avenida onde estavam os casebres havia muito movimento. O Enzo determinou que eu ficasse dentro do carro e deu ordens expressas a um dos policiais para me vigiar com a atenção redobrada.
- Não tire os olhos dele e não permita que saia da viatura. Esse para se meter em encrenca é um tanto. – ordenou. Tive vontade de revidar, mas ele já estava distante fazendo o cerco da maloca indicada pelo Caio.
Continua...
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Comentários


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greader Comentou em 29/10/2016

Cara que conto incrível! Amei <3 você escreve muito bem!

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danrafa26 Comentou em 29/10/2016

Conto perfeito. Bem escrito, dar um tesão da porra, quero mais.

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pcdebh Comentou em 28/10/2016

SEM PALAVRAS, CARA...NUSSSA....MARAVILHOSO O SEU DOIS CONTOS.!!! ESTE E A CONTINUAÇÃO...

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remasz Comentou em 28/10/2016

Palavras muito bem escolhidas, enredo envolvente, o título é um pouco fraco,na ânsia de detalhar perdeu um pouco o impacto, mas a estória ganhou singularidade, parabéns!

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kzdopass48es Comentou em 28/10/2016

O que um bom diálogo não se resolve na cama? Sortudo! Betto




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Ficha do conto

Foto Perfil kherr
kherr

Nome do conto:
O dia que meu cu virou manchete de jornal

Codigo do conto:
91109

Categoria:
Gays

Data da Publicação:
27/10/2016

Quant.de Votos:
8

Quant.de Fotos:
2


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